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Arquivo da categoria: História e experiência

É segredo

Se é um segredo, não conte a ninguém!

Quem disse que segredo não é a alma do negócio. Segredo é aquilo que deve ser mantido em sigilo, não pode ser revelado de forma alguma. Foi mantendo um grande segredo que a Unidos da Tijuca venceu o desfile das escolas de samba do grupo especial do Rio de Janeiro. Um Segredo que valeu ouro e que hoje tem o gosto da vitória.

Nós, como profissionais de comunicação, devemos aprender uma lição importante com o carnavalesco Paulo Barros, um ex-comissário de bordo, que durante 14 anos voou nos céus do Brasil. Trocou de profissão para ser hoje o ex-aprendiz de Joãozinho Trinta. Ele não esqueceu o que estudou: criatividade e segredo era a alma de todo o seu talento e negócio, levado para sua equipe que trabalhou para o belo e inusitado desfile da Unidos da Tijuca.

Pare, pense e reflita: escola de samba é uma empresa como outra qualquer. Mesma estrutura, organização, organograma. Nela encontramos Presidente, Diretores, funcionários, financeiro, comunicação interna, assessoria de comunicação, advogados, terceirizados, marketing, RH, etc. Funciona da mesma forma: faz planejamentos estratégicos, reuniões, trabalho de integração e diretores de harmonia trabalham até a dispersão quando o desfile finalmente chega a Apoteose.

Eu escutei anos atrás, quando entrevistei Joãozinho Trinta, que se uma empresa trabalhasse da forma como uma escola de samba, não haveria tantos conflitos internos. “É tudo igual a uma empresa. Temos que ser organizados da mesma forma, planejar minuciosamente o que fazemos determinar metas e cronogramas, caso contrário o bolo desanda e a concorrência nos vence. Vocês podem aplicar tudo o que nós fazemos na escola de samba. Lá há integração, há harmonia, motivação, não há conflito. Se não houver integração, se não trabalharmos com alegria e metas, não conseguimos colocar a escola para desfilar e este não é o nosso objetivo”, diz Joãozinho Trinta.

Como uma empresa, uma escola de samba não tem nada de diferente. Eles têm uma meta que é vencer a concorrência e qual é a empresa que não deseja o mesmo? E para vencer, o que é necessário? Segredo. Foi mantendo segredo absoluto que a Unidos da Tijuca venceu a concorrência, deixando para trás grandes competidores e mais ainda, o povo na arquibancada e o mundo inteiro de boca aberta com a sua inovação, ousadia, criatividade e originalidade. A começar pela a Comissão de Frente, uma das mais originais de todos os tempos do carnaval carioca. O que continha ali: nada demais. Apenas segredo e uma equipe que acreditava no seu potencial e na sua inovação.

E não ficou por aí. Um carro com mais de cinco mil plantas verdadeiras, uma rampa com vários Batmans voando e Homens Aranhas escalando carros alegóricos. Fogo artificial que mais parecia verdadeiro em um carro que reproduzia a Biblioteca de Alexandria, que foi destruída em um incêndio, levando para sempre milhares de livros e segredos de nossa história.

A Unidos da Tijuca mostrou o que toda empresa deve ter: garra, motivação. Além disso, acreditar no trabalho em equipe e em um sonho, pois somente desta forma, conseguiriam conquistar, após 73 anos, a tão esperada  vitória. Hoje a escola e todos os seus “funcionários” sentem orgulho e carregam o título na alma e no coração de ser uma das grandes escolas do Rio de Janeiro. Uma equipe que trabalhou duro, em uma única meta e teve apenas 80 minutos para mostrar o esforço de um ano de uma comunidade/empresa.

Ser revolucionário e aceitar ideias também faz parte da diferença. Sabe como a Unidos da Tijuca criou o seu enredo? Depois que Paulo Barros, recebeu uma mensagem via Orkut, de Vinícius Ferraz, um rapaz de apenas 15 anos, que ama Carnaval. O adolescente teve a ousadia de encaminhar uma mensagem para o carnavalesco, que quase nunca abre suas mensagens. A ideia estava ali. Um enredo que falasse sobre todos os segredos da História da Humanidade. Uma única mensagem via rede social que mudou para sempre a história da Unidos da Tijuca. Paulo Barros acreditou e sabe o que ele fez? Manteve Segredo para Vinícius. Simples: um adolescente poderia ficar empolgado em saber que sua ideia foi aceita e sair espalhando para os amigos via rede social. Vinícius soube 12 dias antes do desfile. E saiba, Paulo Barros correu um risco tremendo com esta revelação, mas acreditou que o segredo seria mantido. Tudo correu bem e a vitória chegou com várias e várias notas 10 para esta empresa tão unida.

A mídia social, muitas vezes usada e até mesmo desacreditada pelas empresas e por profissionais de comunicação foi um meio para criação de um enredo que levou a escola a tão sonhada conquista. Se muitos gestores acreditassem e trocassem ideias com seus funcionários, a tal troca de conhecimento, poderiam estar vencendo a concorrência, assim como o carnavalesco conseguiu.

Fica aqui a lição para gestores e líderes de pequenas, médias e grandes empresas. Se uma escola de samba, que trabalha o ano inteiro como uma empresa, com integração e harmonia para alcançar suas metas, porque uma empresa não pode fazer o mesmo?

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Memória Empresarial no Templo da Perdição

Você conhece profundamente a história da empresa em que trabalha? Você sabe quantos anos tem a empresa? Qual o seu negócio? Quantos funcionários antigos e novos têm a organização? A história faz parte da integração da empresa? É fator de união? Os novos funcionários quando entraram aprenderam esta história? São muitas perguntas, mas aposto que você não conseguirá responder. Sabe por quê? Como diz um dito popular e parece ser adotado por alguns gestores, lugar de velharia é em museu e muitas das nossas antigas empresas não guardaram o maior patrimônio que elas deveriam conservar: a sua história, a sua MEMÓRIA.

IJ4-WP-48-800Consigo claramente imaginar muitos desses gestores sonhando em contratar Indiana Jones para tentar resgatar esta memória perdida. Mas será que o famoso arqueólogo, criado pelo diretor George Lucas, filmado magistralmente pelas lentes de Steven Spielberg e imortalizado pelo ator Harrison Ford, conseguiria resgatar estas memórias esquecidas em algum “templo perdido”? Não sei não! Se estes gestores acham que recorrer a Indiana Jones é o melhor modo encontrado para recuperar a memória perdida, eles estão completamente enganados.

Muitas organizações esqueceram que história e comunicação devem andar de mãos dadas, mesmo depois de privatizadas, somente desta forma conseguirão construir o futuro que desejam. Como diz Paulo Nassar, presidente da Aberje, “sem memória, o futuro fica suspenso no ar”.  E para se construir uma história precisa-se de um elemento fundamental: gente, funcionário, colaborador, empregado. Chame do que quiser. Mas sem ele, nunca será possível construir ou manter viva esta memória, a marca ou a organização.  O trabalho é feito dia a dia. Para que os alicerces possam ser sólidos, precisa-se da força do empregado, da comunicação para manter, integrar e utilizar esta ferramenta como união com o objetivo de buscar um futuro melhor.

Muitas empresas a partir da década de 90 acabaram por perder parte de sua memória porque a renovação, a privatização e os valores dos acionistas eram muito maiores do que a conservação do “patrimônio nacional”. Concordo que temos que pensar no todo: steakholders, pois empresa que não conquista mercado, não vence a concorrência e não dá lucros, não consegue sobreviver nem tendo um excelente passado, muito menos um excelente nome e marca. É insustentável. Tem que dar lucro e tem que vencer a concorrência. Isto garante a história, o passado, o presente e o futuro da empresa.

Sabemos que quando há uma privatização muitos empregados de culturas completamente diferentes permanecerão dentro dela. Estarão convivendo com pessoas de nacionalidades diferentes. Tudo deve ser respeito e levado em consideração no momento da compra e mais ainda, depois dela. As empresas do setor de telecomunicações, mineração, energia de nosso país estão hoje lutando para recuperar esta história que foi construída e casualmente perdida.

Como disse Karen Worcmam, em seu texto “Memória do futuro, um desafio”, no livro, “Memória de Empresa” da Aberje Editoria:

Trabalhar a Memória Empresarial não é simplesmente referir-se ao passado de um empresa”.

Na verdade, está mais para como uma organização usa a sua história. E acredite, muitas não sabem o que fazer.

Quando a comunicação utiliza a história como ferramenta de integração está valorizando à sua atividade fim, o seu patrimônio e tudo que ela construiu e que há dentro dela. Está pensando no futuro e no que está sendo construído.

Por este motivo, gestores e funcionários e principalmente a área de comunicação, procurem não resgatar somente o passado,  este muitas vezes esquecido em uma sala climatizada cheia de caixas de fotografias, slides, fitas, etc. , ou até mesmo no fundo de gavetas e armários. Na verdade, este material está esquecido por que quem poderia recontar a história não faz mais parte da empresa. Além disso, entrar neste “templo perdido” dá um desespero tão grande que a melhor solução é deixar para lá, esquecer que aquela sala existe e se alguém algum dia precisar de um filme ou uma fotografia, entregue a chave para o pobre coitado e deseje a ele boa sorte na procura.

A história de uma empresa é um referencial para quem trabalha dentro e fora da organização. É a partir dela que uma empresa, seus clientes e funcionários criarão vínculos ao longo de toda a sua trajetória. Então é fundamental que a comunicação empresarial trabalhe esta ferramenta como construção sem criar uma narrativa histórica acumulada por anos e anos, como diz a excelente Karen Worcman.

A Memória Empresarial pode ser utilizada como apoio nos negócios, como acúmulo de experiência. Dentro dos muros de uma empresa, em cada cadeira ocupada, há uma história sendo construída e ela deve ter o seu devido valor. Não deve ser tratada com descaso ou perdida em tal “templos perdidos” até que alguém, algum dia ache importante reescrevê-la.

Tenho observado que há um forte movimento no mercado de resgatar as memórias empresariais. Um bom exemplo disso é o belo trabalho que o Theatro Municipal do Rio de Janeiro  está fazendo e o da Vale é outro. Conheço inúmeras empresas que estão procurando agências de comunicação para não só resgatar as suas memórias, mas para valorizá-las como patrimônio de integração.

Então, você trabalha em uma empresa que não sabe a sua história? É importante cobrar para o seu gestor!

Para finalizar vou utilizar uma citação do grande escritor Gabriel Garcia Márquez, que também está na abertura do texto de Karen Worcman.

La vida no es la uno vivo, sino La que uno recuerda y cómo La recierda para contaria.”

E aí: entendeu? Para construir o futuro vai precisar recorrer à Indiana Jones com o seu famoso chicote?

(Por coincidência a Aberje divulgou em seu site, no dia 25 de setembro de 2009, um artigo intitulado “Memória Empresarial: da Celebração ao Relacionamento Estratégico”. Leia também este excelente artigo clicando na palavra Aberje).


 

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